sexta-feira, maio 13, 2011

Pré-Sal


Na onda do pré-sal, a Petrobrás vai expandindo em passos galopantes, construindo dois novos prédios no Rio de Janeiro, onde os funcionários estão distribuídos em 12 edifícios, e outra torre em Santos para acomodar as novas contratações e funções. Ainda tenta superar um hiato demográfico nos próprios quadros. Segundo Gabrielli, "40% de nossos funcionários têm menos de nove anos de Petrobrás e outros 60% têm mais de 19 anos e estão próximos da aposentadoria. Nos dez anos entre essas duas faixas, não temos quase ninguém em razão de um encolhimento que aconteceu na indústria internacional de petróleo, por causa dos baixos preços nas décadas de 80 e 90".

Muitos técnicos aposentaram-se cedo por trabalhar em áreas de risco e outros receberam benefícios financeiros para sair, muitas vezes com 45 ou 50 anos de idade. "Aposentamos nossa base de conhecimentos e depois contratamos consultores," diz um ex-diretor de recursos humanos.

Essa mudança de estrutura de pessoal provocou uma amarga controvérsia sobre padrões de terceirização. A Petrobrás admite empregar 291 mil pessoas terceirizadas, ante 80 mil funcionários regulares, dos quais 29 mil foram contratadas a partir de 2001. Pretende contratar mais 6 mil funcionários até 2013. Numa prática muito difundida no setor privado, a Petrobrás ganha flexibilidade com a terceirização e tenta conter o pagamento de pesados benefícios sociais outorgados a seus funcionários.

O Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro alegou num litígio que Bureau Veritas, empresa estrangeira que faz inspeções e certificações em 140 países, contratou um engenheiro aposentado da Petrobrás para selecionar e treinar os engenheiros terceirizados para fiscalizar operações em plataformas e barcos especializados que, por exemplo, lançam dutos no alto-mar e usam robôs para inspecionar equipamentos submarinos. A controvérsia sobre a terceirização se insere nas polêmicas envolvendo as regras de conteúdo nacional para equipamentos encomendados pela Petrobrás para exploração e produção em águas profundas.

Consultado sobre essas práticas, o professor Tyler Priest da Universidade de Houston, historiador da indústria do petróleo, observou: "A terceirização dos serviços na indústria de petróleo no mar é o padrão do negócio desde o começo da indústria nas décadas de 40 e 50. Progressivamente, os operadores terceirizam mais e mais. Por exemplo, as empresas inicialmente conduziam as próprias provas sísmicas, terceirizando-as eventualmente. No começo da década de 90, os operadores terceirizavam mais nas áreas de pesquisa e desenvolvimento. Hoje, quase tudo é terceirizado: provas sísmicas, perfuração, fabricação, transporte, instalação de equipamentos no leito do mar, manutenção dos poços, hotelaria nas plataformas. Os operadores mantêm para eles mesmos atividades que lhes dão vantagem competitiva, como interpretação sísmica, ou que são necessárias para administrar riscos, como desenho e engenharia dos poços. Parece que a Petrobrás terceiriza muito menos que os operadores que são empresas privadas".

Até que os brasileiros se empenhem num esforço coerente e de longo prazo pela melhoria na qualidade do ensino público, vão ficar com a fatia menor do valor agregado nos serviços e nos equipamentos demandados no desenvolvimento das descobertas do petróleo em águas profundas e em outras atividades industriais complexas. Por exemplo, a empresa norueguesa Subsea 7 acaba de ganhar uma encomenda de US$1 bilhão para fornecer quatro boias de 1.900 toneladas cada, que serão instaladas 250 metros abaixo da superfície do mar nos Campos Lula e Guará, mais 27 tubos flexíveis (catenary risers) com extensão total de 3,9 km para alimentar as plataformas. E a multinacional FMC ganhou outro contrato de US$ 130 milhões para fornecer sistemas para separação de óleo e gás no leito do mar, operados por robôs. Ainda que esses sistemas fossem montados no Brasil, a criatividade e o valor seriam gerados fora. A curva de aprendizagem fica para nós, para ser abordada com seriedade.

Norman Gall é diretor executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.

Fonte: http://www.clickmacae.com.br/

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