quarta-feira, maio 11, 2011

Petróleo em águas profundas e os recursos humanos



A Petrobrás é brasileira, mas Petrobrás não é o Brasil. Esse truísmo, esse fato óbvio, ganha novo sentido na procura da gigante estatal por gente habilitada para desenvolver suas descobertas em águas profundas, no que o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, diz ser o maior programa de investimento acontecendo no mundo hoje, orçado em mais de US$ 50 bilhões este ano. Numa entrevista, Gabrielli falou que a falta dessas habilidades é o maior obstáculo para trazer ao mercado as grandes jazidas de petróleo no Atlântico Sul, opinião secundada por outros técnicos da indústria.

Nas suas seis décadas de vida, a Petrobrás evoluiu como um sistema de conhecimentos, desde uma base rudimentar para padrões internacionais de profissionalismo. A Petrobrás não é o Brasil porque, desde sua criação, investiu pesado e com garra na capacitação de seus quadros técnicos, enquanto a classe política, torpe e mesquinha, recusou e ainda recusa esforçar-se para dotar o povo brasileiro com um ensino público decente.

"Havia só 64 geólogos no Brasil quando cheguei em 1954", explicou Walter Link, que era geólogo-chefe da Standard Oil of New Jersey (Exxon) antes de ser contratado para criar o novo departamento de exploração da Petrobrás. (Entrevistei Walter Link em sua casa em Laporte, Indiana, em 1975.) "Imediatamente, enviamos 26 brasileiros a algumas universidades nos Estados Unidos para treinar. A Petrobrás criou um departamento de geologia na Universidade da Bahia, próximo às primeiras descobertas de petróleo no Brasil. Outras universidades brasileiras depois fizeram o mesmo."

Nas décadas seguintes, a Petrobrás enviou centenas de seus geólogos e engenheiros mais talentosos ao exterior para estudos avançados, podendo assim reunir os conhecimentos que viabilizaram as descobertas em águas profundas dos anos recentes. No entanto, o ensino básico para a maioria dos brasileiros ficou mergulhado no fracasso, negligência, incentivos perversos e politicagem para o benefício em curto prazo dos prefeitos e governadores.

Ganhando fama mundial como um grande mercado de consumo e pela abundância de recursos naturais, o Brasil tropeça na falta de recursos humanos preparados para a aceleração sustentável de seu desenvolvimento. Numa economia superaquecida, a necessidade urgente para achar operários capacitados está impulsionando a criação de programas governamentais ambiciosos para desenvolver a capacidade humana e compensar os fracassos na educação básica.

Na indústria de petróleo, estudam na Universidade Petrobrás 70 mil funcionários ao ano em cursos de iniciação e reciclagem. O Programa de Mobilização da Indústria Nacional (Prominp) tenta treinar operários para a Petrobrás. Seguem nesses dias, anúncios bombásticos de programas emergenciais novos: Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego (Pronatec) oferecendo oito milhões de vagas até 2014 em 800 escolas técnicas e institutos federais; Escola Técnica Aberta do Brasil (E-Tec) para ensino à distância de 263 mil alunos até 2014; Programa de Ensino no Exterior visualizando 100 mil bolsas até 2014. Esses anúncios desconhecem a falta de professores qualificados nos cursos técnicos já existentes, pela qual 20 mil alunos ficam sem aula nos institutos federais, conforme a reportagem "A crise das Fatecs federais" publicada no Estado na segunda-feira. Também faltam estratégia e esforço de longo prazo para superar, nas novas gerações, o analfabetismo funcional reinante hoje em grande parte da classe operária, até mesmo entre os que já completaram um ensino médio deficiente.

Fonte: http://www.clickmacae.com.br/

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